mai
10
2010

Um dia inesquecível.

por Aline Rangel.

Aquele seria um dia difícil, intenso, desafiador… Matilde era uma mulher bastante forte e madura, mas o drama que vivenciava nos últimos tempos estava consumindo da tal forma seu coração que ela não sabia até quando suportaria… Rezava, pedia inspiração aos bons espíritos, mas já estava cansada e sem esperança. Desde que assumiu publicamente a homossexualidade e a relação afetiva com Catarina, vinha sendo cruelmente afastada dos seus afetos mais queridos… “Por que as coisas tinham que ser assim?”, perguntava-se enquanto caminhava pelas ruas tranqüilas do bairro onde morava. Sabia que não queria nem podia voltar atrás. Foi difícil perceber-se apaixonada por uma mulher, depois de haver sido casada durante tantos anos, ter tido filhos. Não imaginava que isso pudesse acontecer com ela, mas foi tudo tão natural… Quando se separou de Marcelo, achava que havia escolhido distanciar-se do homem para preservar o amigo tão querido que era também pai de seus filhos. Nunca se sentiu apaixonada por ele e considerava que a falta de desejo sexual era por conta desse vínculo mais fraterno que ambos valorizavam. Sofria quando o via cabisbaixo, sentindo-se rejeitado, mas não se conhecia o suficiente para entender o que se passava consigo.

Houve um tempo que descobriu o envolvimento dele com outra mulher, mas nem se sentiu no direito de cobrar algo, fingindo nada saber  para preservar o que considerava existir de bom naquela relação que tanto confortava sua alma carente… de sempre… Foi criada para casar-se e ter filhos, dedicar-se à família… Tinha uma profissão e era independente financeiramente, mais porque não aceitava a postura excessivamente passiva das mulheres do que por incentivo de quem quer que fosse. Pertencia a um tempo, uma geração e, principalmente, a uma tradicional família que não estimulava mulheres a lutarem por si mesmas. Por conta de alguns poucos comportamentos diferentes e um anseio tímido de liberdade, foi considerada diferente e estranha pelos seus. Talvez por isso tenha se separado de si mesma, de seu coração, que a fazia sentir prazer especial entre as mulheres, o coração adolescente acelerar diante da prima carinhosa e olhar os homens como amigos… Ignorou o que sentia, sem entender mesmo o que se passava consigo e, como nunca se apaixonou realmente por ninguém, acabou por praticamente esquecer que essas coisas existiam.

Catarina foi o anjo que fez com que se descobrisse não uma pessoa fria, mas sim reprimida… O amor que sentiam uma pela outra “era de fazer inveja”, como dizia a única amiga que não se afastou de Matilde ao saber sobre sua relação homoafetiva. Os filhos ficaram envergonhados e a família não atendia nem mesmo seus telefonemas. Naquela semana, decidiu conversar com o antigo conjugue sobre o que estava acontecendo. Ele não a atacou quando tomou conhecimento de seu novo casamento, mas desde então não telefonava nem a visitava. Estava muito magoada com isso, pois considerava-o um companheiro e tanto na educação dos filhos – que agora moravam com o avô materno, líder de toda perseguição que teve início já no processo de separação do casal. Quando retornasse da caminhada matinal, faria longa prece para se preparar para o reencontro com Marcelo. Era segundo domingo de maio… Não recebeu um telefonema sequer dos filhos a quem tanto se dedicou… Lembrava-se, naquele momento dolorido, da mãezinha desencarnada com quem conviveu tão pouco… Todos diziam que Marisa era uma santa, de tão especial e acolhedora, paciente e firme, amorosa e transparente que era. “Feliz dia das mães!”, pensou com lágrimas nos olhos. Rogou forças a Maria Santíssima, diante de Quem não se sentia pecadora por tão somente amar um coração especial e se acalmou, como se suave brisa envolvesse todo seu corpo.

Assustou-se ao ver o carro de Marcelo parado diante da casa cuidada com esmero. Havia marcado com ele bem mais tarde! O que aconteceu para que se adiantasse tanto? Ficou apreensiva, julgando ser mais difícil do que pensara a conversa que iriam ter… Arrumou-se, enxugou as lágrimas e abriu a porta de casa (ele ainda tinha uma cópia da chave, para qualquer emergência). Qual não foi a surpresa ao ver o ex esposo e seus três filhos sentados a sua espera. Não acreditou e voltou a chorar, paralisada no meio da sala. “O que aconteceu? O que mudou?”, perguntava-se intimamente. Os três se entreolharam e partiram ao abraço saudoso de tantos meses. Emoção imensa tomou conta de todos e um olhar amoroso e iluminado acompanhava a cena, sem ser percebida. A mentora daquele grupo, mãe de Matilde, estava presente, irradiando muito amor na sala. Ela havia inspirado Catarina, amiga sua de longa data, a que procurasse Marcelo, a fim de desfazer mal entendidos que machucaram e confundiram seu o coração bom. Influenciada por Marisa e sinceramente preocupada com sua amada, Catarina expôs seu coração, abrindo-lhe as inúmeras confidências dolorosas que trocaram na intimidade acerca do que sofriam por amarem uma pessoa do mesmo sexo. Contou-lhe o que conhecia sobre o casamento feliz que eles tiveram, dentro do possível, as preocupações de Matilde sobre a felicidade dele e as dores imensas que sua parceira sentia pelo afastamento de seus rebentos… A conversa deu espaço, ao fim, a que Catarina lhe pedisse interviesse junto aos filhos em favor de Matilde, desfazendo a rede familiar de intrigas criminosas. Bem, o desfecho da conversa é possível deduzir pelo encontro especial daquele dia… Lenta e respeitosamente, aqueles corações amados se reencontravam para uma nova etapa em suas vidas, sob as bênçãos das Mães do Céu e do Cristo Maria…

Até a próxima semana!

Written by in: Aline Rangel |

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