mar
08
2010

Iscas do Bem. (*)

por Aline Rangel.


Lucas chegou à casa do avô cheio de novidades naquela noite. Estava eufórico com o que aprendera no colégio  sobre “o respeito às diferenças”, na aula de cidadania. Matriculado em escola de excelente qualidade, o pequeno tinha acesso à educação privilegiada. Marina, a nora de Dr. Pedro, era mãe cuidadosa e muito responsável. Escolheu para seu único filho um ambiente não propriamente dos mais caros, mas sim dos mais avançados em termos de modelo educacional. Sem prejuízo quanto aos conteúdos a serem transmitidos, havia a proposta de uma formação mais ampliada, que incluía aulas de cidadania, por exemplo, já nas primeiras séries. Temas como preconceito, discriminação, liberdade, ética eram trabalhados desde cedo, além de serem realizadosprojetos para elaboração de emoções e sentimentos infantis relacionados à família, aos colegas, à própria imagem. Ela e o marido estavam muito satisfeitos com os efeitos positivos da escolha, bastante visíveis no desenvolvimento do filho que fora esperado com muita ansiedade. Dr. Pedro não se envolvia com essas coisas… Havia problemas reais com os quais precisava lidar. O dinheiro, para ele, garantia educação primorosa, independentemente das “propostas pedagógicas”. A escola mais cara, obviamente, era amelhor!

-Vovô! Minha professora disse que homem pode casar com homem e mulher pode casar com mulher! E que eles têm filhos também! Não é legal?

Pedro ficou atônito. “Que idéias absurdas eram essas?Não bastava seu estado de saúde (agora estava se sentindo enfermo), as preocupações com sua recuperação (agora estava convencido de estar muito mal mesmo!) e esse menino vêm com estes impropérios! Achou que iria relaxar com a visita e já estava se sentindo pior!”

- Marina, minha filha, que qualidade de escola é essa que fica colocando essas idéias na cabeça do meu neto? Não vê que isso pode fazer “mal” a ele? – E já ia saindo da sala, como costumava fazer em situações delicadas, quando foi abordado pelo neto mais uma vez, sem que a nora tivesse chance de elaborar qualquer resposta.

- Dr. Pedro, que coisa feia… Tenho histórias tão bonitas para contar! A vida é bem melhor do que você imagina! – Olhos fixos no horizonte, a criança quase reproduzia o pensamento da avó, ainda mais luminosa que antes por conta da afinidade de seus corações amigos. A última frase fez com que Pedro, assustado,parasse de andar e resmungar. Júlia, o anjo que esteve ao seu lado por tão pouco tempo, falava exatamente isso quando discutiam sobre valores, preconceitos, posturas ultrapassadas… Pesado silêncio se fez na sala e a própria Marina, mãe sensível e observadora atenciosa dos “repentes” do filho, estava surpresa com a estranha forma de se expressar do pequerrucho.

-Volte, querido Pedro! Vim aqui trazer um pouco de alegria ao seu coração! As coisas sempre podem melhorar! – Mais uma vez uma frase inteira de Júlia, na voz inocente e amorosa de um filho seu de outros tempos, amigo de sempre…

Sem saber o que se passava, Pedro, que menos se sentia Dr. naquele momento, retornou à sala, dirigindo-se ao neto com a voz embargada. Deu um abraço nele e sentiu suave brisa, envolvendo-o, pacificando-o… Estava quase emocionado… Na medida do possível para seu coração teimoso e endurecido, não pela vida, mas por seu orgulho. Chamou Lucas ao jardim e foram caminhar, enquanto ouvia as histórias um tanto escandalosas sobre homossexualidade, preconceito racial, discriminação com a mulher… Curiosamente, sentia-se mais relaxado, ainda que discordasse de quase tudo que ouvia. Era como se conversasse com a esposa desencarnada, única pessoa que ocupara lugar verdadeiramente especial em seu coração. Pela primeira vez em tanto tempo, sentiu saudades dela, da sua voz, dos seus devaneios, das suas risadas, do seu bom-humor em momentos tão críticos… O neto lhe falava de fraternidade e ele se deixava contaminar por aquele otimismo infantil – para ele tão ingênuo! -  que lhe remetia, agora bem mais sutilmente, aos primeiros anos de convívio com seu amor…

Dr. Pedro estava sendo preparado para um encontro, durante o sono, com sua alma gêmea. Precisava estar em melhor padrão para ter contato breve com ela, sentir-lhe a presença e proteção e ser alertado sobre os desafios que enfrentaria ali em diante. Era importantíssimo que aproveitasse bem os anos que teria pela frente, para que não se distanciassem ainda mais, inviabilizando definitivamente qualquer contato mais próximo. As oportunidades estavam se escasseando, mas a Misericórdia Divina permitia que as últimas “iscas” do bem fossem lançadas! Júlia estava confiante e se derramava em sua direção, contaminando com o amor puro de seu coração sublimado. E as estrelas acompanhavam a dupla na demorada conversa, terapêutica, até que seus corações pudessem estar unidos mais tarde, em conversa salvadora e, quem sabe, libertadora…

Até a próxima semana!

(*) Esta narrativa dá continuidade à que foi publicada na semana passada, excepcionalmente na quarta-feira, aqui mesmo no Blog, com o título: “Encontro Especial.”

Written by in: Aline Rangel |

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