dez
22
2009

Vida Renovada.(*)

por Aline Rangel.


Mariana estava pensativa… Não entendia como tudo aquilo poderia ter acontecido! Tirou uns dias de folga do hospital e de seu consultório particular porque estava exausta… Foram dias tensos, conturbados e absolutamente diferentes do que planejara para a semana do Natal, a primeira em que se dedicaria a algo mais que a profissão, em três anos consecutivos. Desde que se separou, passou as festas de final de ano em plantões, fazendo horas extras para fugir da solidão que o distanciamento da família deixara. O fim do casamento coincidiu com a ida dos filhos para o exterior, o que acabou por reforçar o isolamento e a compulsão por trabalho. Bem, mas o fato é que por pouco não fora vítima de uma tragédia. Sendo de família abastada e profissional competentíssima, com agenda sempre lotada e longas filas de espera para consulta, acumulou muitos bens. Teria sido seqüestrada e provavelmente morta se não fosse a ação quase cirúrgica de seu amigo ligado à segurança pública, que em pouquíssimo tempo desvendou o mistério.

Havia um mandante, todavia, que não fora descoberto. Estando muito no início, a investigação ainda não havia dado conta deste importantíssimo detalhe. Mas os criminosos que fariam o trabalho, que parecia encomendado, já estavam presos e isso era um alívio! Um dos suspeitos era seu ex marido, o que a deixava moída por dentro. O processo de separação fora longo e desgastante e praticamente nada do que ele exigira foi-lhe concedido. Eram absurdos! Magoado e ferido em seu orgulho, Benevides infernizou a vida de Mariana até bem pouco tempo, alguns meses na verdade. “Seria isso possível?” Ainda não havia tratado o assunto, nestes termos, com os filhos, em respeito a distância e complexidade do assunto. Quando chegassem para as férias, conversaria com calma e torcia para que seus pressentimentos não se confirmassem… Seria uma dor horrível para eles, que já haviam sofrido demais com a separação difícil e trabalhosa.

O dia de festa das crianças carentes foi um bálsamo para seu coração, tão amargurado com estas “peças” que sua vida pregava. Sentiu-se útil de uma forma diferente! Não se sentia melhor porque muitos estavam numa situação pior (o que achava mórbido e sem sentido), mas percebeu que fazer algo pelo outro sem esperar nada em troca é um serviço que se presta ao próprio coração. E o retorno, que sempre existe, é de um valor intraduzível! Ali, ninguém a conhecia como Dra. Mariana… Era um anônima feliz! Identificava-se muito com sua profissão e considerava-se idealista, mas percebeu que precisava sair um pouco de si, do prestígio que tinha no meio médico para se sentir mais humana e retornar melhor para seu ambiente de trabalho, tão viciado nas aparências e títulos sociais. À noite, iria a uma reunião de estudos de espiritualidade com sua amiga. Ela insistiu muito e Mariana resolveu conhecer o grupo de que falava tão bem, tão animadamente. Precisava conhecer pessoas novas! Estava feliz e em paz agora e resolveu fazer uma oração (coisa que também aprendeu com a amiga, que lhe puxava as orelhas sempre que conversavam). Sorriu, achando bonitinha a sua preocupação consigo.

Uma presença luminosa acompanhava seus pensamentos e a envolvia com vibrações amorosas. Sua protetora espiritual havia intercedido em seu benefício e logrado êxito por conta de sua aproximação com as pessoas e com trabalho assistencial com que se comprometera antes de reencarnar. Havia a possibilidade de passar por terrível trauma (que lhe não tiraria a vida, somente a maior parte dos bens) e somente depois dedicar sua vida aos mais carentes e à espiritualidade. Como foi acessível antes disso às inspirações que a fizeram voltar-se para as novas atividades no bem e acumulara muitos créditos por dedicar-se profissionalmente mais do que o que se esperava na situação financeira estável que desfrutava, pode ser poupada da pior parte daquela experiência. Ficaria muito surpresa quando soubesse que realmente era seu rival… Mas isso ficaria para depois… Por enquanto, estava atravessando muito bem um teste grave de amadurecimento e o que estava por vir era, sem dúvida, muito trabalho, mas muita paz em seu coração e realização em seu espírito.

Até a próxima semana!

(*) Este texto é  uma continuação do que foi publicado na semana passada, com o título “Estranha Surpresa.”

Written by in: Aline Rangel |

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