nov
30
2009

Rota de Paz.

por Aline Rangel.


Depois daquela conversa (*), que se fez mais longa e significativa do que Iracema poderia imaginar, muitos questionamentos vieram à tona. Estava bastante confusa com tudo que acontecia, com as mudanças bruscas por que havia passado nos últimos dois meses. Reconhecia-se apaixonada por um quase criminoso (ele aprontava em bares e festas, envolvendo-se em brigas, consumia drogas pesadas e estava sendo “convencido” a começar a traficar), tinha um péssimo relacionamento com a família e não se identificava com o curso recém-escolhido para sua formação profissional. A sensação de que estava tudo “fora do lugar” era muito presente naquelas duas semanas após o episódio com a professora a quem respeitava quase involuntariamente, sem compreender o porquê de suas intervenções serem tão marcantes, especialmente agora. O bem-estar que experimentou ao acudi-la e, depois, no passeio e desabafo, pelos jardins da faculdade a impressionou deveras! Por que se sentiu tão desarmada com alguém que representava exatamente o que abominava? Detestava estar submetida à autoridade, de quem quer que fosse…

Mais um dia começava e ela, diferente do habitual, não estava resistente a ir para aula. Não que estivesse animada, mas não estava raivosa, impaciente. Continuava, porém, reflexiva. Maneco a procurava insistentemente… Parecia que não retornar suas ligações, deixava-o mais “interessado” nela! Ainda bem não estava por dentro dos planos a que o jovem impetuoso pretendia dar início… Sabia, por fragmentos de diálogos suspeitos ao celular, (escutou sem que ele percebesse) que o próximo passo deveria ser o tráfico. Quanta loucura! Estava tão decidida a aceitar tudo o que ele propusesse para permanecerem juntos! O perigo, de certa forma, a atraía… O risco, o proibido… Ele bem representava para ela este lado da vida que considerava sedutor… Será por isso estava tão envolvida? Era meio frustrante pensar nisso, porque sempre desejou sentir um amor muito forte por alguém, que a deixasse sem resistências, sem controle… Achava que isso fosse amor de verdade! Queria tanto ser amada… como nunca foi… “Nossa, a aula! Fico aqui viajando e quase perco a hora!” Aqueles pensamentos eram trechos de conversa que havia tido com orientadores desencarnados, durante o sono. Ela não teria como se lembrar do encontro, do que sentiu no contato com sua protetora espiritual, ficando apenas com as idéias principais do que ouvira.

- Iracema! Tudo bem? Estamos chegando juntas hoje! Acordou mais cedo ou fui eu quem atrasou?

As duas riram e entraram conversando, para o pasmo dos colegas que estavam pelo corredor e, principalmente, para um “amigo” de Maneco, que ela ainda não conhecia. “Olha como está boazinha, amiguinha da professora…”- pensavam maldosos. “Que interessante! Olha como ela está bem! Parece até mais bonita!” – pensou uma jovem, que mais tarde viria a ser sua principal confidente. A aula transcorreu como de costume e tudo parecia bem, até que pouco antes do intervalo, uma mensagem no celular deixou Iracema transtornada. Seu ex-namorado e alguns poucos integrantes de sua turma haviam sido presos, num show, por porte ilegal de arma e comércio de drogas. Ficou pálida e quase desmaiou, sendo acudida pela tal colega que se surpreendera com sua nova aparência e por Marta, logo após o término da aula. Começou a chorar, triste com o que aconteceu e consigo mesma, por quase ter se colocado nesta situação. Tantos pensamentos, tanta angústia que ela não conseguia falar nada, apenas deixar-se consolar pela futura amiga-irmã e pela mentora encarnada, que, sabendo já do que se tratava (leu o informe por torpedo), tentava acalmá-la, com palavras de estímulo a que visse a vida com outros olhos, mais otimistas, pelo presente que recebera de livrar-se de ser pega envolvida com aquele grupo.

Iracema estava aprendendo coisas novas, sentindo-se protegida, como nunca houvera sentido. Aliás, “sentido era o que faltava a sua vida…” – pensava. “Gostaria de encontrar novos caminhos, ter oportunidades de ser feliz.” Nunca acreditou nisso, mas agora as coisas se modificavam dentro dela e fora também. Estava inclinada a ir com Marta a uma reunião de estudos, sobre espiritualidade, ou coisa parecida. Havia acordado com impulso de perguntar-lhe o dia e como poderia fazer, mas desistiu… Depois disso, sentiu que precisava ir. “Bem, não havia mal em conhecer…” Foi se acalmando, melhorando e aceitou o convite de Lívia para lanchar e espairecer um pouco, antes da próxima aula. Chamaram a professora e saíram reflexivas, mas bem-humoradas, cada uma com pensamentos diferentes sobre o assunto, mas todas com a certeza de que algo significativo e transformador estava se dando, em algum nível, sem suas vidas… Uma luz intensa e acolhedora as envolveu num abraço e sumiu, deixando o leve e tocante perfume do amor divino que parte das almas misericordiosas que nos velam os sonhos e conduzem nossos corações ao Criador.

Até a próxima semana!

(*) Este texto é uma continuação do que foi publicado na semana passada, aqui no Blog. O título a que estou me referindo é: “Mudando Rumos.”

Written by in: Aline Rangel |

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