nov
23
2009

Mudando rumos.

por Aline Rangel.

Iracema estava ansiosa… Havia se envolvido com pessoas perigosas de verdade. “Vou dar um jeito nisso…” Pensava insistentemente, enquanto andava apressada para a Universidade. Sabia que estava correndo risco quando conheceu Maneco e seus amigos, mas o arrepio que sentiu na espinha tinha também outro significado… Estava apaixonada. Nunca havia sentido aquilo antes! Era demais!!! Não importava o que estava acontecendo com ela, pois tudo o que vivia com “sua alma gêmea” compensava as dificuldades e, mais ainda, os “negócios” de que se tornaria cúmplice. Era inteligente, articulada e não teria qualquer problema em se proteger de possíveis danos. Chegaria mais uma vez atrasada à aula de Marta… Nossa, que chatice ser chamada atenção por uma bobagem dessas… Não entendia porque não reagia, já que se mostrava normalmente bastante disposta a afrontar quem quer que fosse. Mas quando ela falava… Dava uma dor estranha no peito, como se estivesse cometendo um crime! E estava próxima disso, né…

-Boa tarde, Iracema! – Falou discretamente, ainda de costas para a aluna rebelde. – Tudo bem com você? Trouxe aquela pesquisa sobre dependência química?

-Oi… É… Trouxe, mas não sei se está completa…

-Ótimo! Coloque sobre minha mesa, por favor! Já, já verifico as informações que conseguiu.

A aula transcorreu como de costume, com muitos afazeres para a turma, muitas perguntas. Marta era apaixonada pela sala de aula! Sentia-se “em casa” com seus alunos, esmerando-se na preparação das apresentações do conteúdo, bem como nas avaliações que fazia diariamente. Era firme e amorosa, responsável e não convencional. Admitia em si um traço conservador, mas era bem resolvida com isso. Até brincava com os jovens, pedindo-lhes que a atualizassem para não dar muitas gafes. A maior parte da turma respeitava e gostava de seu método de trabalho. No caso de Iracema, não se tratava de admirar, gostar, mas de se sentir quase forçada a seguir suas orientações.

-Iracema, fique, por favor, para conversar comigo no intervalo. É urgente.

“O que seria agora?” Perguntava-se intimamente. “Mais um sermão que ouviria sem retrucar?” Ao seu lado, sem que pudesse ver, havia uma companhia nada agradável… Uma figura masculina, mosntruosa, incitava-a a desafiar a professora, a dizer-lhe, finalmente, umas “verdades”. Isso a faria sentir-se mais forte! Ela iria conseguir com “sua ajuda”. Estava prestes a alterar o tom de voz, negando-se a ficar, quando ouviu:

-Vi você  ontem, com seu grupo de “amigos”. O que está fazendo envolvida com aquele rapaz? Não sabe que é perigoso? Já pensou que pode ser até presa, se for pega com eles? O que pensa da vida, Iracema! O que está acontecendo com você?

-Você  não tem o direito de se meter na minha vida deste jeito! Que pegue no meu pé aqui dentro, tudo bem, mas ficar me vigiando?  Tá pensando que é o que minha? Já tenho mãe pra me encher o saco! – E se levantou para sair, com raiva, completamente fora de si.

-Calma,aí! Não é assim que se conversa! Eu me preocupo com vc… Ai! Que dor!

Marta fora golpeada pelo obssessor que acompanhava a jovem, antes que dissesse alguma coisa que a fizesse recuar… Mas o efeito de vê-la caindo sentada, de repente, contorcendo-se de dor, fez com que despertasse. Na verdade, sabia que ali estava uma das poucas pessoas que se importavam sinceramente com sua vida… Achava chato ceder sempre as suas palavras, mas sabia que era a única que “podia” se fazer ouvida… A mentora de Marta, muito luminosa, acompanhada de dois auxiliares, percebendo que o efeito positivo já se fazia, interveio, neutralizando a ação do criminoso desencarnado. Ao mesmo tempo, abraçou Iracema, fazendo-a sentir-se diferente… Ela caiu num choro, quase compulsivo, sem entender direito o que se passava consigo… Mas deixou-se estar ali, agora também abraçada pela mentora encarnada, que poderia, finalmente, chegar ao seu coração, carente e confuso. Passado o susto e o choro, saíram para uma volta. Conversaram longamente, enquanto andavam pelo jardim da faculdade, onde havia sido admitida recentemente. Não estavam sozinhas… O amor fraterno as acompanhava e dava seguimento àquele diálogo que – quem sabe, não é mesmo – mudaria pra muito melhor o rumo de uma vida quase à beira do abismo.

Até a próxima semana!

Written by in: Aline Rangel |

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