por Aline Rangel.
O dia era claro, quente e agradável. Vera andava a beira da praia, sentindo a brisa suave que tornava o sol mais acolhedor. Tantos pensamentos a atordoavam que ela mal podia perceber o quanto estava encantadora aquela tarde, o quanto aquele despretensioso passeio podia trazer paz e conforto ao seu coração. Havia sido inspirada por sua mãe espiritual desencarnada, que a assistia do Plano Superior, a “dar uma volta”, “esfriar a cabeça”, “sozinha”… Não entendia muito bem o porquê de ter sentido aquela vontade de estar ali, mas estava chegando à conclusão que houvera sido uma boa idéia, já que não se lembrava da última vez que estivera em conversa íntima consigo. Desde a adolescência deixara o hábito de escrever em diários, de sonhar acordada. Não havia mais tempo para divagações. Curiosamente estava se sentindo bem por estar ali, “sem fazer nada”, como se aquele momento fosse especial… “Devia ser bobagem – ela pensava- apenas uma forma de justificar esta fugida de tudo, de todos… Menos de si mesma.”
Olhando o mar, pensou em como andava distante de si. Parecia-lhe piegas aquela sensação, todavia um fluxo de idéias teimava em chamar sua atenção para o quanto precisava cuidar-se, acolher-se, ter paciência consigo. Alguma coisa mexia com ela, a ponto de fazer caírem algumas lágrimas. Não havia desconforto, mas sim uma sensação de alívio, no início, transformando-se em ternura. Saiu como que de um transe e estranhou-se. O que estava acontecendo? Sempre tão forte, tão decidida, tão ocupada, tão competente, tão disciplinada, tão segura de si, tão, tão, tão… Cansada. Era isso. Estava cansada e não percebia! A alimentação, os exercícios, a rotina regrada lhe pareciam suficientes para dar conta de tantos compromissos. Sentiu o quanto estava endurecida, enclausurada nas escolhas que pensara fossem suas.
O sol se punha e ela se lembrou da mãe ensinando-lhe a fazer uma oração à hora do Ângelus. Que surpresa aquela recordação! Há quanto tempo não parava com alma para rezar. Fazia breve e automaticamente suas preces ao dormir (havia se habituado), avaliando, ao mesmo tempo, o que havia feito durante o dia e o que precisava programar para o outro. Quanta pressa!!! Como conseguia viver assim? Riu de si, mesmo achando tudo aquilo muito estranho. O que havia feito com seu coração nos últimos tempos? Orgulhava-se de muitas coisas construídas, sim! Mas e aí? Estava meio confusa, quando se sentiu envolvida por um vento leve, que refrescava e aquecia ao mesmo tempo… Rezou uma Ave-Maria, bastante sentida, enquanto era abraçada pela luz de sua mãe desencarnada. Há muito sua mentora esperava por este momento de amor com uma filha tão cara ao seu coração. O dia foi escurecendo e Vera estava se sentindo outra… Apenas uma hora havia se passado, mas para ela era diferente. O retorno à casa bem cuidada, de que ela pouco desfrutava, por sinal, seria lento. Ela não estava só, assim como você, leitor, não está. Abra seu coração ao amor! Existem almas bondosas que velam por você, cheias de misericórdia, aguardando, tão somente, que viva mais pleno, feliz, em paz…
Até a próxima semana!







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