jun
16
2009

Ser Pacífico ou ser Passivo?

por Aline Rangel.

“Estar em paz não é para os calmos, inertes ante as perturbações, pela indiferença; mas para os que se tornaram imperturbáveis ante os focos de desequilíbrio, porque se fizeram inacessíveis às suas insinuações, pela profunda compreensão da natureza humana.”(*)

No trato cotidiano, comum surgirem situações em se faz necessário agir com firmeza para que sejam garantidos direitos, sejam respeitados limites… O cuidado em não ser passivo em momentos decisivos de escolha tem sido discutido e apresentado como conquista importante a ser feita pelos que se candidatam ao desenvolvimento da maturidade psicológica. Interessante notar como são confundidos “ser pacífico” com “ser passivo”. Em defesa de posturas mais “pacíficas”, o uso da agressividade acaba por ser demonizado, como exercício de violência, poder sobre o outro, expressão de raiva, dentre outras condutas que põem (aí sim) em risco a integridade física e psicológica do outro.

Ser pacífico é ter serenidade para enfrentar os desafios impostos pela vida e por nossas necessidades de aprendizado, usando apropriadamente a intuição, a racionalidade, abrindo mão dos desejos egóicos de estar com a razão, de manter o controle dos acontecimentos, de esperar que o outro faça o que se espera independente de sua vontade. Para agir de forma pacífica, mister se faz saber antes o que é a combatividade, a assertividade, ou seja, conhecer e saber lidar conscientemente com a agressividade (a própria e a do outro!). O passivo, diferentemente do que está sendo exposto, não tem um contato saudável com o impulso agressivo, reprimindo-o, castrando-o. Sendo assim, suas expressões de desagrado ou não aceitação aparecem de maneira disfarçada, através da manipulação, do controle indireto… Muito distantes dos que alcançaram a paz de saber traçar e respeitar os próprios limites, tornando-se sensíveis aos ritmos alheios e agindo sempre na defesa de seus ideais, os que sofrem de passividade vivem situações constantes de abuso, colocando-se como vítimas, quando em verdade são os maiores responsáveis pelas circunstâncias adversas em que se encontram.

Vale destacar que a presente reflexão está tratando de extremos. Sem dúvida alguma, mesmo os que já conseguem estabelecer relações saudáveis, equilibradas no ambiente profissional, na família, nos vínculos afetivo-sexuais experimentam, aqui ou ali, algum grau de passividade (imaginando que estão sendo pacíficos). Da mesma sorte, aqueles que tendem mais a este tipo de comportamento, mas que se esforçam por vencer esta limitação, observando-se e exercitando a assertividade, com doçura e tranqüilidade, não podem ser incluídos no grupo das vítimas-manipuladoras de plantão. O que se pretende discutir aqui são os efeitos nocivos e perigosos das condutas aparentemente pacíficas, que disfarçam a raiva e desejo de controle. Conciliar ação justa e firme no bem com serenidade e imperturbabilidade é conquista ainda distante para o padrão médio evolutivo da Terra, mas o esforço por alcançá-la, um pouco e mesmo precariamente todos os dias, é dever de todos os que se candidatam a viver a proposta do Cristo de aprender pelo amor.

(*) Extraído do texto “Dissabores.”, Benjamin Teixeira pelo espírito Anacleto.

Written by in: Aline Rangel |

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